20200707_093021_0000

Apareceu uma mancha no coração do meu bebê no ultrassom!!! E agora?

Qual a real importância do achado de golf Ball (foco hiperecogênico intracardíaco) durante um exame de ultrassom obstétrico de rotina ou morfológico?
Existem alguns achados ultrassonográficos que fogem da anatomia habitual de um bebê, e que, devido alguns estudos foram relacionados a presença de algumas malformações, síndromes ou doenças fetais. 
De acordo com a “forte”ou “fraca”associação destes marcadores com as anomalias fetais, foram chamados de marcadores maiores e marcadores menores.

Um destes marcadores em especial, é chamado foco ecogênico intracardíaco, ou mais conhecido em nosso meio como “Golf Ball”. Foi apelidado de Golf Ball (bola de golfe em inglês), devido a cor branca e formato de uma bolinha, na maioria das vezes.
Este achado ultrassonográfico (a tal “manchinha branca dentro do coração do bebê”) foi descrito pela primeira vez na década de 1980 e foi demonstrado que trata-se de calcificações (acúmulo de cálcio) dentro do músculo papilar (músculo dentro do coração que ajuda a fixar e movimentar as válvulas do coração).

Os primeiros relatos de achado de Golf Ball datam dos anos 80, quando muitos estudos da época descreveram associação entre alguns marcadores ultrassonográficos, e a presença de aneuploidias, como por exemplo a Síndrome De Down.
Este “Golf Ball” é visível em até 3-5% das gestações no segundo trimestre, e quando vistos e relatados, frequentemente despertam ansiedade no paciente, sua família e no clínico de referência.

No passado, (na verdade até pouquíssimo tempo atrás) bastava o achado de um marcador ultrassonográfico menor, como o Golf Ball, para elevar uma gestação como de maior risco para Síndrome de Down. E o grande problema dessa abordagem é que, como esses achados ao ultrassom são relativamente comuns, um grande número de gestantes seria taxado como de alto risco, desnecessariamente, e seriam expostas a exames de diagnóstico mais invasivo, como a amniocentese, porém com muitos resultados normais no fim das contas.
Já em 1997, uma importante revista médica, a British Medical Journal argumentou que antes de adotar-se marcadores ultrassonográficos como o Golf Ball nos critérios de risco para anomalias cromossômicas, os benefícios para as mulheres deveriam justificar os altos custos com aconselhamento e com as perdas fetais provindas de investigações invasivas mais numerosas.

O antigo princípio da medicina Primum-Non-Nocere (Primeiro não faça mal) ainda permanece valido na humanidade e deve ser considerado, evitando milhares de exames invasivos e um número inaceitável de perdas fetais de bebes geneticamente “normais”.
Um modelo analítico foi construído considerando o número de mulheres com menos de 35 anos que seriam encaminhadas para amniocentese pelo achado de um Foco ecogênico intracardíaco isolado. Os autores descobriram que seriam necessárias 485 amniocenteses para diagnosticar apenas 1 feto com síndrome de Down; potencialmente causando até 2,8 abortos pós procedimento de fetos normais para todos cada feto com síndrome de Down detectado.

Publicações recentes, com população estudada mais numerosa e com maior validade científica não conseguiram encontrar associação válida entre alguns marcadores ultrassonográficos, como o Golf Ball e a presença de aneuploidias, sobretudo quando estes achados são isolados e numa população de baixo risco basal.

O Golf Ball (foco ecogênico intracardíaco) por si só, portanto, não causa alteração na função cardíaca fetal e não está associado com anormalidades cardíacas estruturais.
Talvez seja hora de descartar, ou pelo menos minimizar a importância de alguns desses achados ultrassonográficos, como o Golf Ball, que hoje geram mais ansiedade e custos com investigações adicionais do que algum benefício diagnóstico real.
E isso não sou eu que estou afirmando! Foram realizados grandes trabalhos de revisão envolvendo dezenas de milhares de gestantes que apontam para a tendência de considerar o Golf Ball Isolado como uma variante da normalidade.

Muita discussão ainda acontece sobre o tema e a literatura atual tende a apoiar uma política de não relatar a presença de Golf Ball Isolado em gestantes de baixo risco que fizeram um rastreamento de aneuploidias de primeiro trimestre adequado.
Por outro lado, em mulheres de maior risco basal pela idade (acima de 35 anos) o cenário é diferente e estes marcadores ultrassonográficos menores ainda merecem algum estudo complementar. A ausência de um marcador ultrassonográfico menor em gestantes mais velhas (> 35 anos) que não realizaram um rastreamento de primeiro trimestre, não serve para descartar ou reduzir o risco de aneuploidias, pois esse cenário ainda pode perder o diagnóstico de até metade dos fetos com síndrome de Down.

Isso reforça a importância de realizar o rastreamento ultrassonográfico gestacional nos períodos preconizados pelos estudos, com profissionais treinados e experientes em triar essas variações anatômicas e  analisá-las dentro de uma contexto científico, pesando os riscos sempre baseados em evidências científicas mais robustas disponíveis.
Texto adaptado de  Bethune M. Time to reconsider our approach to echogenic intracardiac focus and choroid plexus cysts. Aust N Z J Obstet Gynaecol. 2008;48(2):137-141. doi:10.1111/j.1479-828X.2008.00826.x

Compartilhe esse post

Share on facebook
Share on google
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Share on print
Share on email

SOBRE NÓS

Prezamos pela qualidade, respeito ao cliente, ética e parceria com os médicos assistentes.

CONTATO